Conto: Nostalgia

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Olfato aguçado pelo aroma do cappuccino. Aprazível. Delicioso. Sensual. Sentia o líquido ardente rasgar-lhe a garganta. A cafeína emaranhava em seu corpo, quase unindo-se ao sangue. Parte de si.

Lembranças. Tortura. Era isso que era. Era isso que sempre seria. Artifício traiçoeiro que lhe remetia as mais dolorosas recordações. Aquele era o preferido dele. Chocolate, caramelo, chantilly. Costumava dizer que nada era melhor para aumentar a libido. Ela ria. Era apaixonada por sua mania de sempre conectar substâncias quaisquer ao sexo. Pela manhã, recebia-lhe com uma caneca fumegante da bebida preta, símbolo de seu amor por ela.

Agora tudo era saudade. Odiava o saudosismo exagerado, mas desde que ele se fora era quase inevitável. E bebia café. E recordava. E chorava. E dormia. Hábitos malditos forçavam-na a permanecer no passado. Quando o “nós” ainda os definia.

Chamou o garçom.

— Mais um copo de nostalgia, por favor.

RIP, Sai Baba

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Eu costumo evitar falar sobre religião em textos, pois respeito as crenças (ou a falta delas) de cada um. Essa semana, porém, fui informada de uma notícia que queria compartilhar.

Poucos de vocês sabem, mas no último domingo, no Domingo de Páscoa, faleceu uma das almas mais bondosas que viveram em nosso planeta nos últimos anos. O líder espiritual Sathya Sai Baba de 84 anos era conhecido no mundo inteiro por suas mensagens e ensinamentos sobre a paz interior e o amor. Nascido em um vilarejo na Índia, onde viveu até sua morte, Baba recebia milhares de visitantes em sua “Morada da Paz Suprema” que admiravam seus propósitos.

Baba, porém, ao contrário do que muitos possam pensar, não direcionava suas mensagens para uma religião ou tentava criar uma nova. Ele era adepto à Religião do Amor e, por isso, atraía seguidores de diversas crenças. O Avatar defendia apenas a sinceridade da fé, independente da religião à que fosse dirigida.

Sai Baba estava hospitalizado à um mês e sua morte foi  causada por falência múltipla dos órgãos. Seu desencarne foi uma perda lamentável para todos aqueles que acreditavam em suas palavras, mas podemos crer que sua vida não foi em vão. Seus ensinamentos continuarão a ser passados e ele, com certeza, continuará trabalhando para a paz no mundo, esteja onde estiver.

“Deus não está em religiões, mas em sua mente e em seu coração.” Sathya Sai Baba

Classificados do amor

Procura-se um amor que me trate com carinho. Não precisa ser meloso, nem romântico ao extremo. Só alguém que se lembre das datas importantes, como meu aniversário e nosso aniversário de namoro, e me receba nesses dias um pouco mais amoroso do que o normal. Nem peço presentes caros, pois não procuro namorado rico; nem rosas e chocolates, já que não quero mocinho de cinema. Tudo o que preciso é um selinho, um beijo na testa e um “feliz aniversário”.

Procura-se um amor que me trate com respeito. Não precisa deixar de brigar comigo quando achar que estou errada (eu sei que não sou perfeita), nem quando for para defender suas opiniões, pois não quero homem que tenha medo de dizer o que pensa. Só não quero que levante a mão para mim, pois não aturo homem covarde. Eu acredito na igualdade dos sexos e, por isso, prometo também nunca encostar um dedo sequer exceto para fazer carinho.

Procura-se um amor que ame a si mesmo antes de tudo – de insegura, já basta eu. Não quero homem convencido; aliás, nem precisa ser bonito! Mas um pouco de vaidade cai bem em qualquer um. Estar sempre limpinho, cheirosinho e arrumadinho é um pré-requisito importantíssimo para que eu te dê uma segunda olhada.

Procura-se também um amor que me dê atenção. Não precisa me ligar de cinco em cinco minutos, porque odeio homem grudento, nem me ver todo dia – a saudade dói, mas matá-la é a melhor sensação do mundo! Mas quando estiver comigo, quero que esteja inteiramente ali. E quando estivermos com amigos, não quero que finja que eu não existo. Porém, não quero que os esqueça igualmente; jamais deixarei de lado os meus. O melhor é aprender a dividir o tempo, ou compartilhá-lo.

E esses são os pré-requisitos para meu futuro amor. Eles são um pouco exigentes, mas com tanta gente querendo tudo isso e ainda procurando um homem bonito, rico e ultrarromântico, até que meus pedidos são bem simples, não é?

Se você estiver lendo isso e possuir todas as características, por favor, me procure. Só não prometo que estarei esperando sentada. Não é porque você ainda não me achou, que eu vou parar de me divertir e viver minha vida. Então, corra atrás. Quem sabe a gente não se esbarra por aí?

Razão de uma vida

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Sob o céu estrelado dessa madrugada fria
Lembro-te. Amo-te. Sinto-me nostálgico.
Ouço uma linda melodia
Enquanto nossa história versifico.

Há algum tempo recaíram meus olhos em você
E impossivelmente vieram minhas razões de viver
Como um grito. Agudo o suficiente para me ensurdecer
E só restar você. Meu incrível amanhecer.

Na tua ausência, escureço
Na tua presença, floresço
E se te beijo, desfaleço

Mas se te vejo sofrer
Com minha felicidade presentearia-te
E enclausuraria-me para mais uma vez teu sorriso ver

Fome de amor

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O que temos visto por aí?

Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros e transparentes. Com suas danças e poses em closes ginecológicos, cada vez mais siliconadas, corpos esculpidos por cirurgias plásticas, como se fossem ao supermercado e pedissem o corte como se quer… Mas? Chegam sozinhas e saem sozinhas… Empresários, advogados, engenheiros, analistas, e outros mais que estudaram, estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos… Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os novíssimos “personal dancer”, incrível. E não é só sexo não! Se fosse, era resolvido fácil, alguém dúvida? Sexo se encontra nos classificados, nas esquinas, em qualquer lugar, mas apenas sexo! Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho sem, necessariamente, ter que depois mostrar performances dignas de um atleta olímpico na cama… Sexo de academia… Fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que vão “apenas” dormir abraçadinhos, sem se preocuparem com as posições cabalísticas… Essas coisas simples que perdemos nessa marcha de uma evolução cega. Pode fazer tudo desde que não interrompa a carreira, a produção…

Tornamo-nos máquinas, e agora estamos desesperados por não saber como voltar a “sentir”. Só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós… Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada nos sites de relacionamentos “Orkut”, “Par-Perfeito” e tantos outros. Veja o número de comunidades como: “Quero um amor pra vida toda!”, “Eu sou pra casar!” até a desesperançada “Nasci pra viver sozinho!” Unindo milhares, ou melhor, milhões de solitários, em meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos, plásticos, quase etéreos e inacessíveis.

Se olharmos as fotos de antigamente, pode ter certeza de que não são as mesmas pessoas, mulheres lindas se plastificando, se mutilando em nome da tal “beleza”… Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento, e percebemos a cada dia mulheres e homens com cara de bonecas, sem rugas, sorriso preso e cada vez mais sozinhos… Sei que estou parecendo o solteirão infeliz, mas pelo contrário… Pra chegar a escrever essas bobagens (mais que verdadeiras) é preciso ter a coragem de encarar os fantasmas de frente e aceitar essa verdade de cara limpa… Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia isso é julgado como feio, démodê, brega, famílias preconceituosas…

Alô, gente! Felicidade, amor, todas essas emoções fazem-nos parecer ridículos, abobalhados… Mas e daí? Seja ridículo, mas seja feliz e não seja frustrado… “Pague mico”, saia gritando e falando o que sente, demonstre amor… Você vai descobrir, mais cedo ou mais tarde, que o tempo pra ser feliz é curto e cada instante que vai embora não volta mais… Perceba aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, ou talvez a pessoa que nada tem haver com o que imaginou, mas que pode ser a mulher da sua vida… E, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso a dois… Quem disse que ser adulto é ser ranzinza? Um ditado tibetano diz: “Se um problema é grande demais, não pense nele… E, se ele é pequeno demais, pra quê pensar nele?” Dá pra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o dedo, assistir desenho animado, rir de bobagens ou ser um profissional de sucesso, que adora rir de si mesmo por ser estabanado… O que realmente, não dá é para continuarmos achando que viver é in ou out… Que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo, que temos que querer a nossa mulher 24 horas maquiada e que ela tenha que ter o corpo das frutas tão em moda na TV, e também na playboy e nos banheiros. Eu duvido que nós, homens, queiramos uma mulher assim para viver ao nosso lado, para ser a mãe dos nossos filhos. Gostamos, sim, de olhar, e imaginar a gostosa, mas é só isso. As mulheres inteligentes entendem e compreendem isso. Queira do seu lado a mulher inteligente: “Vamos ter bons e maus momentos e uma hora ou outra, um dos dois, ou quem sabe os dois, vão querer pular fora, mas se eu não pedir que fique comigo, tenho certeza de que vou me arrepender pelo resto da vida”… Por que ter medo de dizer isso? Por que ter medo de dizer: “amo você”, “fica comigo”?

Então, não se importe com a opinião dos outros, seja feliz! Antes ser idiota para as pessoas que infeliz para si mesmo.

Arnaldo Jabor

O primeiro dia do resto de nossas vidas

Ela ergueu seus olhos novamente e viu, pela primeira vez, um ato em resposta da parte dele. Um sorriso sincero se abriu em seu rosto bonito, tão diferente da maioria dos que ali se encontravam. Foi essa mesma dessemelhança que o destacou, chamando a atenção dela no instante em que seu olhar o avistou. E desde então, de tempos em tempos, o observava, analisando-o. Vira-o pegar água e mais água, em vez das bebidas alcoólicas mais pedidas. Vira-o mover-se de um lado para o outro sem sentir necessidade de uma dança mais extravagante. Vira-o dispensar as garotas atrevidas que iam até ele.

E agora ele sorria para ela.

Ela sentiu seu rosto enrubescer e abaixou-o rapidamente. Não pretendia que ele a avistasse. Ele era bonito demais, diferente demais, legal demais. Por que quereria qualquer coisa com ela?

Arriscou um olhar de esguela e percebeu que ele não estava mais lá. Suspirando, decepcionada, tentou voltar sua atenção para as amigas animadas, que dançavam para se exibir e competiam para ver quem beijava mais garotos.

Mas um corpo alto e pouco musculoso atrapalhou sua visão.

Ela ergueu o rosto e quase perdeu o fôlego quando encontrou aqueles olhos que ela estivera observando a noite inteira.

– Oi – disse com o mesmo sorriso de antes.

E isso bastou para ela perceber que estava perdida. Nada nunca mais seria o mesmo depois daquele sorriso. Nada nunca mais seria o mesmo depois daquele garoto.

Ela sorriu de volta, sem acreditar. E ele percebeu que era ela quem ele sempre estivera esperando.